O papel dos pais não é ensinar a fé, é transmiti-la
Há uma ilusão bonita mas perigosa na educação dos filhos: a de que, se dissermos as coisas certas, eles vão absorvê-las.
Mas os filhos não fazem o que dizemos. Fazem o que nos veem fazer.
A fé não é excepção. Não se ensina num discurso, numa catequese ou numa conversa especialmente preparada. Transmite-se por contágio: pelo que os filhos vêem, sentem e respiram dentro de casa todos os dias.
São João Paulo II escreveu na Familiaris Consortio que "os pais devem ser para os seus filhos, pela palavra e pelo exemplo, os primeiros mestres da fé." Repara na ordem: primeiro o exemplo, depois a palavra.
Semeadores, não professores
Um professor tem um programa. Sabe o que vai ensinar, quando e como. Avalia os resultados.
Um agricultor lança a semente, rega, trata e confia. Não controla o que acontece debaixo da terra. Não sabe quando vai brotar. Sabe apenas que a semente tem vida dentro de si e que o solo onde foi plantada deve ser cuidado.
É exactamente assim que funciona a fé em família. Nós preparamos o solo (com gestos repetidos, com coerência, com a nossa própria vida de oração). O resto não é nosso. É de Deus.
Isto é, ao mesmo tempo, uma responsabilidade enorme e um alívio profundo.
A responsabilidade é real: o que fazemos hoje, em casa, está a formar o coração dos nossos filhos. A forma como tratamos o nosso marido/mulher, como pedimos desculpa, como reagimos quando as coisas correm mal, tudo isso é catequese. Constante e silenciosa.
O alívio também é real: não precisamos de ser perfeitos. Precisamos de ser verdadeiros. Um pai que reza mesmo quando está cansado ensina mais do que mil palavras sobre a importância da oração. Uma mãe que pede desculpa aos filhos ensina mais sobre o perdão do que qualquer explicação teórica.
A infância é o solo fértil
Não porque as crianças sejam ingénuas. Mas porque estão abertas. O coração de uma criança recebe tudo com uma disponibilidade que os adultos vão perdendo com o tempo.
O que plantarmos agora nos gestos pequenos e constantes do dia a dia vai criar raízes que os nossos filhos vão levar para a vida. Raízes que vão sustentar a sua fé quando tiverem de a escolher por si próprios.
Não somos os autores dessa fé. Somos os semeadores.
E às vezes, a semente mais importante é esta: deixar que eles nos vejam precisar de Deus.
— Maria
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